Igreja do Carmo

Certo dia passeava ingenuamente pelas ruas do Porto, quando deparei com painel de azulejos belíssimos, na fachada lateral de uma igreja.
Estava parada à espera que o sinal dos peões se tornasse permissivo, e de repente vi um caracol na parte inferior esquerda da fachada de azulejos. Uau! Lembrei-me logo do meu amigo Jorge Caracol e tirei umas fotos para lhe oferecer de presente. Fotografia, atrás de fotografia qual não foi o meu espanto quando percebi que o caracol não fazia parte dos azulejos, afinal visto mais de perto, percebi que era de plástico, que era uma montagem posterior e que não fazia parte do painel. Mas tinha sido ali deixado com muito cuidado, as suas cores e formas adaptavam-se perfeitamente ao painel e funcionavam como uma espécie de camuflagem, só um observador atento podia detectar o pacífico e simpático intruso.

- Qual teria sido o objectivo do seu autor? – Não pude deixar-me de questionar.
O Jorge adorou, claro. Mas tal como eu, levou algum tempo a fazer-se a mesma questão que eu havia feito e sugeriu-me que investigasse a história do caracol. Resolvi-me a fazer uma investigação muito discreta por minha conta e risco, pois não queria desproteger o nosso simpático caracol, não queria ir perguntar ao padre, por exemplo, não fosse ele lembrar-se de arrancar dali o nosso amigo. O caracol é segredo nosso!

Comecei então uma investigação privada, querem saber o que descobri?

Igreja do Carmo - Desenho do arquitecto José de Figueiredo Seixas, esta Igreja de fachada barroca foi construída, entre 1756 e 1768, pela Ordem Terceira do Carmo. O hospital surgiria mais tarde, ficando pronto em 1801. As Ordens Terceiras tiveram particular importância na história da Cidade. Trata-se de agremiações formadas ao lado das ordens monásticas tradicionais, correspondendo, no Porto, a um assinalável surto de riqueza, ávido de influência social organizada.
Deste modo, à actividade benemérita associava-se uma legítima intenção política, ajustada à Igreja, ao Estado e ao espírito do Iluminismo. A fachada lateral da Igreja do Carmo, voltada a Oeste, está revestida por um imponente painel de azulejos, datados de 1912, representando o ajuntamento dos Cristãos no monte Carmelo, para assistirem ao destino do repto lançado aos Pagãos. No cimo, é possível vislumbrar a nuvem do milagre, com a Virgem ladeada por uma corte de anjos. Esta composição foi traçada por Silvestre Silvestri, pintada por Carlos Branco e executada na fábrica da Torrinha, em Gaia. Vale ainda a pena apreciar o portal, rectangular, flanqueado de duas esculturas religiosas, e o corpo superior da frontaria, com esculturas e coruchéus. No interior, destaque para a excelente talha dourada, nas capelas laterais e no altar-mor, embora se calcule que a parte interna não é a original que foi projectada por José de Figueiredo Seixas.


Moral da história: por trás de cada coisa existe um segredo, mesmo que seja apenas um simples e lento caracol. Apesar de não saber, ao certo qual foi a razão pela qual o seu autor o colocou ali, gosto de olhar para ele sempre que ali passo e estou contente por ter aprendido todas estas coisas.Obrigado, caracol!
E não se esqueçam de guardar o nosso segredo!

Texto e fotos: Mariana Selva

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